Nesta segunda-feira, o Vice-Prefeito de São Paulo, que herdou o cargo após a saída do titular José Serra/PSDB, digníssimo senhor Gilberto Kassab/PFL, aos gritos de “fora daqui” e “vagabundo” expulsou um cidadão paulistano do Posto de Saúde, motivo? O pobre cidadão, ao “topar” com a maior autoridade do município, aproveitou a oportunidade para reclamar do atendimento médico e demais leis.
É assim que eles tratam o povo. Este é o governo democrático que os caciques do PFL estão acostumados a fazer. Desde os idos de 64, afinal, se você não sabe, o PFL é o antigo PDS que era a ARENA. Não sabe o que foi a ARENA? Simplesmente o braço direito do regime militar. Nada mais apropriado para o momento que um texto de Mário de Andrade, lido na Semana de Arte Moderna de 1922, isso sem citar o Pobre Paulista do IRA! e o A Burguesia Fede do Cazuza.
Ode ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
De Paulicéia desvairada (1922)